SEÇÃO ABERTA

 

O eu social1

George Herbert Mead

 

 


 

 

Reconhecendo que o eu2 não pode surgir na consciência como um “eu”, que o eu é sempre um objeto, isto é, um “me”, eu gostaria de sugerir uma resposta a essa questão. O que está em jogo quando o eu é um objeto? A primeira resposta poderia ser a de que um objeto implica um sujeito. Em outras palavras, um “me” é inconcebível sem um “eu”. A essa resposta, deve-se constatar que tal “eu” é uma pressuposição, jamais uma apresentação da experiência consciente, pois no momento em que foi apresentado passou para a situação objetiva, pressupondo, se preferirmos, um “eu” que observa, mas um “eu” que pode revelar-se apenas ao deixar de ser o sujeito para o qual o objeto “me” existe. Não é, obviamente, o hegelianismo de um eu que se torna outro para si mesmo aquilo em que estou interessado, mas a natureza do eu tal como revelada pela introspecção e sujeita à nossa análise factual. Essa análise revela, pois, no processo da memória, uma atitude de observar a si mesmo em que ambos, o observador e o observado, aparecem. Concretamente uma pessoa pode se lembrar quando se questiona o modo como maneja isso- ou aquilo- censurando-se por suas faltas ou gabando-se por suas realizações. Por conseguinte, no eu reunificado do momento que passou, encontra-se ambos, um sujeito e um objeto, todavia trata-se de um sujeito que é agora um objeto de observação e que tem a mesma natureza, enquanto eu objeto, daquele que apresentamos em negociação com os outros de nós. Da mesma maneira, lembramo-nos das objeções, reprimendas e concordâncias dirigidas a nossos companheiros. A postura sujeito que instintivamente tomamos só pode ser apresentada como algo experienciado – na medida em que podemos estar conscientes de nossos atos apenas por meio dos processos sensoriais colocados em ação após o ato ter sido iniciado.

Os conteúdos do sujeito apresentado, que se tornou um objeto ao ser apresentado, mas que ainda se diferencia, como sujeito da experiência passada, do “me” a que foi endereçado, são aquelas imagens que iniciaram a conversação e as sensações motoras que acompanharam a expressão, acrescentadas das sensações orgânicas e da resposta de todo o sistema à atividade iniciada. Em resumo, são esses conteúdos que compõem o eu diferenciando-o dos outros aos quais se dirige. O eu revelando-se como um “eu” é o eu imagem mnêmica que atua sobre si mesmo, é, também, o mesmo eu que atua sobre os outros eus.

Por outro lado, o que acontece para que se componha o “me” a quem o “eu” se dirige e observa, é a experiência que é produzida por essa ação do “eu”. Se o “eu” fala, o “me” ouve. Se o “eu” ataca, o “me” sente o golpe. Aqui, novamente, a consciência do “me” é do mesmo tipo da que emerge da ação do outro sobre ele. Ou seja, é apenas quando o indivíduo se percebe atuando em relação a si mesmo tal como atua em relação aos outros que ele se torna um sujeito para si mesmo em lugar de um objeto, e somente quando ele é afetado por sua própria conduta social do mesmo modo pelo qual ele é afetado pela dos outros é que se torna um objeto para sua própria conduta social.

As diferenças em nossas experiências mnêmicas do “eu” e do “me” são, conforme o caso, as das imagens mnêmicas da conduta social iniciada e das respostas sensoriais.

É desnecessário, considerando a análise de Baldwin, de Royce e de Cooley e de muitos outros, ir além da indicação de que essas reações emergem, em nossa conduta social com os outros, antes da auto-consciência introspectiva, isto é, o bebê chama conscientemente a atenção dos outros antes de chamar sua própria atenção ao afetar a si mesmo, e ele está consciente de ser afetado pelos outros antes que esteja consciente de ser afetado por si mesmo.

O “eu” da introspecção é o eu que adentra as relações sociais com os outros eus. Não é o “eu” que está envolvido no fato de que alguém se apresente como um “me”. E o “me” da instrospecção é o mesmo “me” objeto da conduta social dos outros. Alguém se apresenta como atuando sobre os outros – nessa apresentação ele é indicado, no discurso indireto, como o sujeito da ação, sendo ainda um objeto –, e o sujeito dessa apresentação não pode jamais surgir diretamente na experiência consciente. É o mesmo eu que é apresentado como aquele que observa a si mesmo, e ele atua sobre si mesmo exclusivamente na medida em que, e somente na medida em que, pode se atingir por meio da estimulação social pela qual atinge os outros. O “me” a que ele se dirige é o “me”, conseqüentemente, ele é atingido de forma semelhante pela conduta social dos outros sobre ele próprio.

Essa exposição da situação introspectiva, entretanto, parece negligenciar uma característica mais ou menos constante de nossa consciência, a de que a corrente móvel da consciência do que fazemos é distinguível da consciência do campo de estimulação, esteja esse campo dentro ou fora. É essa “consciência” o que levou muitos a presumir que é da natureza do eu estar consciente tanto do sujeito quanto do objeto – de ser sujeito da ação em relação a um mundo objeto e, ao mesmo tempo, estar diretamente consciente desse sujeito enquanto sujeito – “Pensando sua própria existência simultaneamente ao que quer que ele pense”. Como James indicou, essa consciência é mais logicamente concebida como uma pura experiência3 – o pensador sendo uma consequência, não um conteúdo, enquanto o “me” nada mais é que uma parte do conteúdo do objeto no fluxo dessa pura experiência. Entretanto, essa declaração lógica não faz justiça aos achamentos da consciência. Além das estimulações e respostas atuais e de suas imagens mnêmicas, nas quais se apoiam forçosamente as sensações e respostas orgânicas que compõem o “me”, há o acompanhamento de uma grande parte de nossa experiência consciente a que podemos denominar auto-conciência, uma resposta interna ao que podemos estar fazendo, dizendo ou pensando. No fundo nós mesmos estamos, em grande parte do tempo, mais ou menos claramente conscientes de nossas próprias respostas às observações feitas aos outros, das inervações que poderiam levar a atitudes e gestos que respondem aos gestos e atitutes dirigidos aos outros.

O observador que acompanha a totalidade de nossa conduta auto-consciente não pode ser o “eu” de fato, aquele que é responsável pela conduta em propria persona – ele é, mais apropriadamente, a resposta que alguém produz à sua própria conduta. A confusão de nossa resposta, dando continuidade a nossas estimulações sociais emitidas pelos outros com o sujeito subentendido de nossa ação, é o solo psicológico para a afirmação de que o eu pode ser diretamente consciente de si na medida em que atua e sofre a ação. A situação corrente é essa: o eu atua em relação aos outros e está imediatamente consciente dos objetos envolvidos. Na memória, ele também unifica tanto o eu que atua sobre os outros quanto os outros que agem sobre ele. Mas, além desses conteúdos, a ação referida aos outros demanda respostas no próprio indivíduo – há então um outro “me” criticando a aprovação, e sugerindo e planejando conscientemente, isto é, o eu reflexivo.

Não é à totalidade de nossa conduta em direção ao mundo objetivo que nós, então, reagimos. Ali, onde estamos intensamente preocupados com o mundo objetivo, desaparece esse conhecimento que nos acompanhava. Temos que evocar a experiência para tomarmos conhecimento de que estivemos implicados, como eus, a produzir a auto-consciência que é parte constituinte de grande parte de nossa experiência. Como indiquei alhures, o mecanismo para essa resposta à nossa própria estimulação social dos outros ocorre como resultado natural do fato de que os sons, gestos, especialmente gestos vocais, feitos pelo homem ao se dirigir aos outros, convoca ou tende a convocar respostas de si mesmo. Este si mesmo não pode se ouvir falar sem adotar, em certa medida, a atitude que adotaria se outros lhe dirigissem as mesmas palavras.

O eu que, conscientemente, se coloca ao lado dos outros eus torna-se, pois, um objeto, um outro para si mesmo, pelo próprio fato de que ele se ouve falando e responde. O mecanismo da introspecção é então fornecido por uma postura social que o homem necessariamente adota para si mesmo e o mecanismo do pensamento, na medida em que o pensamento usa símbolos que são utilizados no intercâmbio social, nada mais é senão uma conversação interna.

Pode-se considerar agora que é a combinação do eu recordado, que atua e tem existência ao lado dos outros eus, com a resposta interna a essa ação o que é essencial ao ego autoconsciente – o eu no sentido pleno do termo – embora nenhuma fase da auto-consciência, na medida em que aparece como objeto de nossa experiência, seja um sujeito.

Deve-se observar que a reação à conduta social do eu pode estar no papel de outra reação– nós apresentamos seus argumentos desse outro que reagena imaginação e o fazemos com suas informações e gestos e, até mesmo, com sua expressão facial. Nesse sentido, interpretamos o papel de todo o grupo e, na realidade, é somente na medida em que agimos assim que eles se tornam parte de nosso ambiente social – para que tomemos conhecimento de outro eu enquanto eu é necessário que tenhamos interpretado seu papel ou daquele com quem o identificamos em função de seus propósitos relacionais. A resposta interna às nossas reações em relação aos outros é, por isso, tão variada quanto é nosso ambiente social. Não simulamos os papéis dos outros em relação a nós porque estamos sujeitos a um simples instinto imitativo, o fazemos porque ao responder a nós mesmos estamos, de forma adequada a cada caso, tomando a postura de outro que não o eu que está atuando diretamente, e nessa reação flui espontaneamente as imagens mnêmicas das respostas dos outros sobre nós, as imagens mnêmicas das respostas dos outros que respondem a situações assemelhadas. Assim a criança pode pensar sobre sua conduta como boa ou má apenas na medida em que reage a seus próprios atos em relação às palavras recordadas de seus pais. Até que esse processo tenha se desenvolvido no processo abstrato do pensamento, a auto-consciência permanece dramática, e o eu, que é a fusão do ator recordado e do coro que o acompanha, está, em certa medida, frouxamente organizado e é muito claramente social. Subsequentemente o campo interno modifica-se em um forum ou grupo no pensamento. As características e entonações da dramatis personae enfraquecem e a ênfase recai sobre o significado do discurso interno, as imagens tornam-se apenas as pistas necessárias mais simples. O mecanismo permanece, contudo, social e a qualquer momento o processo pode se tornar pessoal.

Pode-se dizer que o mundo ocidental moderno tem, ultimamente, elaborado muito de seu pensamento na forma de romances e que, em períodos anteriores, o drama foi mais bem sucedido, tendo sido, do mesmo modo, um mecanismo social de auto-consciência. Gostaria de mencionar, brevemente, a necessidade que se tem de preencher o falante comum com pensamentos abstratos que mesmo o mais obscuro pensador sente na busca de sua audiência. A relevância disso para a auto-consciência religiosa é óbvia.

Existe mais uma consequência dessa natureza do eu a que gostaria de convocar sua atenção. Trata-se do modo de sua reconstrução. Gostaria de enfatizar esse aspecto por sua importância para a psicologia da ética.

Como uma mera organização do hábito o eu não é auto-consciente. Ele é o eu que mencionamos como caráter. Quando, contudo, um problema essencial surge, ocorre alguma desintegração nessa organização, tendências diferentes surgem no pensamento reflexivo tal como vozes diferentes em desacordo entre si. Em certo sentido o eu anterior desintegrou-se e, do processo moral, um novo eu emerge. A questão particular que desejo colocar reside em saber se o novo eu surge ou termina com o novo objeto. Existe, é bem sabido, uma relação recíproca entre o eu e seu objeto, um envolve o outro e os interesses e as considerações elaboradas pelo eu respondem justamente aos conteúdos e valores do objeto. Por outro lado, a consciência do novo objeto, seus valores e significados, parece surgir antes na consciência que no novo eu que responde ao novo objeto.

O homem que discerniu um novo valor humano está mais diretamente consciente do novo objeto em sua conduta do que de si mesmo e de sua maneira de reagir a ele. É como decorrência do fato cuja referência acabamos de fazer, que a atenção direta se dirige primeiro ao objeto. Quando o eu se torna um objeto, aparece na memória, e a postura que ele demanda já foi realizada. Com efeito, deslocar a atenção do objeto para o eu envolve apenas a falta de objetividade que criticamos não apenas no agente moral mas no cientista.

Presumindo, como faço, o caráter essencialmente social da finalidade ética, encontramos na reflexão moral uma disputa em que alguns valores encontram um porta-voz em seu antigo eu ou numa parte dominante de seu antigo eu, enquanto outros valores, referidos a outras tendências e motivações, emergem em contraste e encontram outros porta-vozes para apresentar seus casos. Abandonar o campo aos valores representados pelo antigo eu é justamente o que denominamos egoísmo. A razão para o termo é encontrada no caráter habitual da conduta relativa a esses valores. A atenção não é solicitada pelo objeto e desloca-se para o campo subjetivo onde as respostas afetivas são identificadas com o antigo eu. O resultado é que declaramos os outros fins em disputa em termos subjetivos de outros eus e o problema moral parece tomar a forma de um sacrifício, seja do eu ou dos outros.

Todavia, onde quer que o problema seja objetivamente considerado, embora a disputa seja social, ele não deveria ser solucionado numa luta entre eus, mas em uma reconstrução da situação em que personalidades diferentes, ampliadas e mais adequadas, possam emergir. A tensão deve estar centrada no campo social objetivo.

Na análise reflexiva, o antigo eu deveria iniciar nas mesmas condições com os eus cujos papéis estão presumidos e o teste da reconstrução seria encontrado no fato de que todos os interesses pessoais estão devidamente reconhecidos na nova situação social. O novo eu que responde a essa nova situação pode aparecer na consciência apenas após essa nova situação ter sido compreendida e aceita. O novo eu não pode entrar no campo como fator determinante porque está conscientemente presente apenas após a nova finalidade ter sido formulada e aceita. O antigo eu pode surgir apenas como um elemento adjacente aos outros interesses pessoais envolvidos. Se ele é o fator dominante, ele tem de estar em dissensão com os outros eus cujos interesses estão em questão. Assim como o antigo eu, ele é definido por sua disputa com os outros que se impõem em sua análise reflexiva.

Alcança-se a solução pela construção de um novo mundo que harmoniza os interesses conflitantes no qual surge o novo eu.

O processo é, em sua lógica, idêntico ao abandono da antiga teoria com a qual o cientista se identificou, sua recusa em atribuir à sua antiga atitude qualquer peso a mais que pudesse ser atribuído às outras hipóteses e observações conflitantes. Apenas quando a hipótese bem sucedida, que evocou a disputa, tenha sido formulada e aceita, pode o cientista identificar-se novamente com essas hipóteses como sendo suas, e sustentá-las contra mundum. Ele não pode colocar o problema e a solução científica em termos de sua personalidade anterior. Ele deve nomear sua nova hipótese sobre de si e compreender sua personalidade científica ampliada em seu triunfo.

A diferença fundamental entre a solução científica e moral de um problema reside no fato de que o problema moral lida com interesses de pessoas concretas em que o eu em sua totalidade é reconstruído em sua relação com os outros eus cujas relações são essenciais para sua personalidade.

O crescimento do eu decorre de uma desintegração parcial – o aparecimento de interesses diferentes no forum da reflexão, a reconstrução do mundo social e o consequente aparecimento do novo eu que responde ao novo objeto.

 

 

1 Esse trabalho foi lido por George Herbert Mead na reunião anual da Western Philosophical Association em março de 1913 e publicado pela primeira vez, nesse mesmo ano, no Journal of Philosophy, Psychology, and Scientific Methods, 10, 374-380. Texto disponível em <http://psychclassics.yorku.ca/Mead/socialself.htmin>. Texto inédito em português; traduzido pelo prof. dr. Francisco Teixeira Portugal(UFRJ).
2Mead trabalha com as diferenças oferecidas pelo inglês entre self, “I” e “me” que traduzimos por eu, “eu” e “me”. Vale notar que o autor sempre que se utiliza dos termos I e me, ele os coloca entre aspas.
3 O termo cunhado por William James em seu livro Principles of Psychology (1890), a partir de consciousness, foi sciousness. Como não encontramos tradução em português para o termo, optamos pelas considerações que o concebem como pura experiência à diferença da noção consciência que demanda um eu preexistente.




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