ARTIGOS

 

A memória na obra freudiana, para além da representação i

 

Diego Frichs Antonello I

Regina Herzog II



A memória na obra freudiana, para além da representação

Resumo

O artigo tem como propósito trazer uma contribuição à questão da memória na dimensão de dinâmica psíquica, a partir da lógica do pensamento freudiano. Para tanto realizamos uma releitura da Carta 52, na qual distinguimos impressões psíquicas – os traços mnêmicos e fueros – geradas conforme a capacidade egoica em dominar ou não a quantidade de excitação. Os primeiros são constituídos sob a esfera do princípio de prazer e os fueros indicam, diversamente, uma memória literal que não está submetida às diretrizes de tal princípio. Esta constatação coloca um limite para o domínio do princípio de prazer e da própria concepção de representação. Nesta perspectiva podemos conceber o psiquismo de forma ampliada, sendo que a representação não é a única forma de expressão no aparelho psíquico.

Palavras-chave: Traços mnêmicos; Fueros; Memória; Psicanálise; Carta 52.


Memory in Freud's work, beyond representation

Abstract

The article aims at making a contribution to the issue of memory in the dimension of psychic dynamics, based on the logic of Freudian thought. We carried out a re-reading of Letter 52, in which we distinguish psychic impressions – memory traces and the "fueros" – generated in accordance to the ego’s ability to dominate or not the amount of excitation. Memory traces are constituted in the sphere of the pleasure principle whereas the "fueros" indicate a literal memory that is not under the guidelines of that principle. This finding sets a limit to the prevalence of the pleasure principle and the concept of representation itself. In this perspective we can conceive of the psyche in a broad way, since the representation is not the only way of expression in the psychic apparatus.

Keywords: Memory traces; Fueros; Memory; Psychoanalysis; Letter 52.


La memoria en la obra de Freud, más allá de la representación

Resumen

Este artículo pretende aportar una contribución a la cuestión de la memoria en la dimensión de la dinámica psíquica, con base en la lógica del pensamiento freudiano. Con este fin se realizó una relectura de la Carta 52, en la que distinguimos las impresiones psíquicas –las huellas de memoria y "fueros"– generados en conformidad con la capacidad del yo de dominar o no la cantidad de excitación. Los primeros están constituidos en el ámbito del principio del placer y los "fueros", a diferencia, indican una memoria literal que no está sujeta a las directrices de este principio. Este hallazgo pone un límite al dominio del principio del placer y al concepto mismo de representación. En esta perspectiva, podemos concebir la psique de una manera amplia, ya que la representación no es la única forma de expresión en el aparato psíquico.

Palabras-clave: Huellas de memoria; Fueros; Memoria; Psicoanálisis; Carta 52.


 

Desde os seus primeiros escritos, Freud teve a preocupação de fornecer uma explicação para a memória, partindo do princípio que “uma teoria psicológica digna de consideração precisa fornecer uma explicação para a memória” (Freud, 1950/1996d, p. 351). Através da memória atualizamos informações passadas, sejam elas vivenciadas ou fantasiadas; mais do que isso, a partir da memória, nos é permitido construir novas representações. E isso é possível devido à capacidade de reorganização das representações que a compõem; entretanto a memória é exercida, também, em uma parte que é irrepresentável, ou seja, fora do campo da simbolização. Esse fato trará um problema de difícil solução para Freud, pois admitir o irrepresentável acarretará um limite tanto teórico, quanto clínico para a psicanálise, o que vai conduzi-lo na direção da postulação de uma segunda tópica, na qual revisa vários conceitos fundamentais de sua teoria.

Tendo em vista esse lugar privilegiado e fértil que a memória ocupa na obra freudiana, pretendemos, no presente artigo, realizar uma releitura da Carta 52 (Freud, 1950/1996d), texto de grande importância com relação a esse tema, conhecido, tal como o Projeto de 1895 (Freud, 1950/1996e), como o que apresenta um aparelho de memória. Nessa carta, Freud nos traz a ideia de uma memória altamente seletiva, marcada por rearranjos e reorganizações dos traços mnêmicos que a compõem. Juntamente com isso, esse texto comporta uma problematização acerca do que se inscreve no aparelho. Essas duas vertentes ali trabalhadas remetem, segundo nossa leitura, às duas noções presentes no texto, traços mnêmicos e fueros, que consideramos distintas. Isso vai fornecer subsídios para esclarecer o que designamos acima como ‘um problema de difícil solução’.

Vamos abordar essas duas noções entendendo os traços mnêmicos como se constituindo sob o domínio do princípio de prazer e os fueros, diversamente, indicando uma memória literal não submetida às diretrizes do princípio de prazer. Isso aponta, portanto, para um limite de tal princípio e da própria concepção de representação que está na base da primeira tópica freudiana. Os fueros seriam marcas psíquicas, ou melhor, impressões que não foram inscritas no psiquismo. Sendo assim, possuem um estatuto diferente dos traços mnêmicos e remetem a um funcionamento que se aproxima da compulsão à repetição. Para alcançar esse objetivo pretendemos, em um primeiro momento, abordar a descrição do aparelho neuronal, tema do Projeto de 1895 (Freud, 1950/1996e), que nos servirá de contraponto para a discussão do que está além do aparelho psíquico tal como apresentado a partir de 1900.

A complexificação da memória neuronal

Freud, ao propor uma “psicologia científica”, dispôs os neurônios, células matrizes que compõem o sistema nervoso do Projeto de 1895 (1950/1996d), em três sistemas distintos [phi (Φ), psi (ψ) e ômega (ω)]. A principal diferença entre tais sistemas é a capacidade de reter ou não a quantidade que passa através dos neurônios; tal disposição capacita os neurônios do sistema psi (ψ) como sede da memória, uma vez que são os únicos capazes de guardar informações referentes à passagem da quantidade por eles. Ao passar pelas barreiras de contato localizadas nos pontos de contato dos neurônios psi (ψ), a energia encontra uma resistência que somente é transposta quando a energia da corrente é superior à da barreira. Dessa forma é deixado um traço mnêmico referente à passagem da quantidade na barreira, sendo justamente esse traço mnêmico o que vai possibilitar a formação de uma memória, dando subsídios para que o aparelho nervoso identifique qual o caminho mais eficiente para escoar a energia que por ele circula.

Escoar a energia de forma eficaz é fundamental porque o sistema nervoso, proposto por Freud (1950/1996e), opera de acordo com duas funções básicas: (1) pelo modelo do arco-reflexo – descarga energética total; e (2) pela fuga do estímulo: função primária e secundária, respectivamente. A função primária corresponde de maneira mais ampla à finalidade de todo o organismo – princípio de inércia (livrar-se de toda excitação). Essa formulação, segundo Derrida (1995), nos impede de ficarmos surpresos com o Além do princípio de prazer (Freud, 1920/2006b), artigo no qual Freud declara que as exigências da vida obrigam o aparato a seguir um caminho mais longo, mas no final das contas segue o propósito de toda a vida: a morte (nível zero de excitação no aparelho). A função secundária, por sua vez, responde ao princípio de constância – funcionamento do aparato em um nível mínimo de energia, essencial para realizar a ação específica a fim de satisfazer os estímulos endógenos.

Ainda, o sistema psi (ψ)é considerado a sede do eu (psi (ψ) núcleo) caracterizado por um núcleo de neurônios permanentemente investidos (fato que implica certa tolerância à tensão), conferindo ao eu a capacidade de transformar a energia no estado livre (processo primário) em energia ligada (processo secundário), o que é também fundamental para sobrevivência do aparelho neuronal. Toda quantidade vigente no aparato neuronal exerce violência nos pontos de resistência entre os neurônios (as barreiras de contato), sendo que os sinais dessa violência são os traços deixados após sua passagem. A formação desses traços, portanto, implica a dor, conforme aponta Derrida (1995); da mesma forma o eu (constituído por neurônios) deve possuir uma tolerância à dor para permanecer constantemente investido de energia.

No Projeto de 1895 (Freud, 1950/1996e) a memória é descrita como a diferença quantitativa entre as facilitações dos neurônios psi (ψ) - facilitação referindo-se, aí, à escolha de caminhos que são usados para descarregar a quantidade de modo que a ação específica seja satisfeita. Em outras palavras, a capacidade de memória é possível devido à resistência oferecida pelas barreiras de contato, permitindo assim, certo armazenamento de energia. Entretanto, as facilitações fazem parte de uma trama neuronal, formando uma rede complexa de caminhos que se entrecruzam, e como há uma diferença quantitativa nas facilitações a energia dificilmente é conduzida pelo mesmo caminho.

Por conseguinte, o traço mnêmico, conforme ressalta Garcia-Roza (1991), não é constituído como um simples elemento que seria reproduzido diante do aumento da excitação sem levar em conta a complexidade da trama neuronal. É a memória “representada pelas diferenças nas facilitações” (Freud, 1950/1996e, p.352), ou seja, a escolha de um caminho em detrimento de outro, que nos direciona a pensar a memória como seletiva. Temos, portanto, uma complexificação da memória, não se tratando de identificá-la apenas a partir das facilitações, mas da diferença quantitativa entre elas. Devido à trama neuronal ser organizada em um sistema de facilitações, a memória do Projeto de 1895 (Freud, 1950/1996e) está muito além de um princípio mecânico, pois tanto o acúmulo como a descarga de quantidade se traduzirá em desprazer e prazer, ou seja, em signos de qualidade.

Uma das maiores dificuldades enfrentadas por Freud ao elaborar o modelo de aparato psíquico foi conciliar memória e percepção, dificuldade que retorna ao tratar da consciência [neurônios ômega (ω)] quando precisa explicar a origem da qualidade no aparelho. O problema é que os mesmos neurônios não podem servir a duas funções, uma vez que para ocorrer o processo perceptivo os neurônios responsáveis pela percepção devem permanecer inalterados, caso contrário a capacidade perceptiva seria reduzida a cada novo registro. A solução foi distinguir os neurônios permeáveis phi (Φ) que conduzem, mas não armazenam a quantidade, dos neurônios impermeáveis psi (ψ) capacitados a armazenar certa quantidade. As barreiras de contato desempenham um papel fundamental na distinção entre permeabilidade e impermeabilidade e permitem a Freud explicar a formação dos traços mnêmicos.

São os traços mnêmicos que capacitam a rede neuronal a escoar a energia pelos caminhos mais facilitados; os traços são os indicadores desses caminhos, os quais, notadamente, serão os mais repetidos. Uma vez que há sempre energia afluindo (externa e interna) ao aparato, temos sempre novos caminhos sendo traçados, o que implica uma certa seletividade e capacidade de rearranjo daqueles a serem seguidos. A explicação dessa capacidade do aparelho nervoso fica mais clara se remetemos à Carta 52 (Freud, 1950/1996d). Ela nos possibilita distinguir impressões diferentes nos neurônios responsáveis pela memória: os traços e as marcas. Essa distinção é importante para diferenciar a repetição como o retorno do recalcado dentro da esfera representativa e a compulsão à repetição que se encontra além do processo de recalque, consequentemente, fora do princípio de prazer.

Vale ressaltar que as barreiras de contanto se caracterizam pela capacidade de reter, podendo receber mais informações advindas das impressões calcadas sobre sua superfície. A fim de explicitar melhor esse ponto sigamos o exemplo apresentado por Freud em Uma nota sobre Bloco Mágico (1915/1996c). Se, em vez de escrever normalmente no celulóide transparente da superfície do bloco mágico, o estilete for apoiado com demasiada força, duas coisas poderão ocorrer: ou união prolongada entre as duas camadas, folha de celulóide transparente e o papel encerado fino, ou uma ruptura em ambos. Cabe lembrar, aqui, que a disposição das camadas descritas no citado artigo é a seguinte: “primeiro, há uma folha transparente onde é feita a escrita com o estilete; segundo um papel encerado e por último a prancha de resina” (Freud, 1925/1996c, p.256). Como consequência do excesso de força aplicado sobre o bloco, ele acaba por não funcionar como deveria. A camada celulóide atua como um escudo protetor para o papel encerado; nessa metáfora podemos observar que se o escudo é rompido há um prejuízo das camadas subsequentes, ou seja, sem a filtragem da quantidade, a função de escrita, do traço é perdida, dando lugar à impressões mais fortes: as marcas.

Nesse sentido podemos estabelecer uma distinção entre essas duas figuras: traço e marca. De acordo com Freud (1950/1996c) os traços mnêmicos estariam sujeitos a um rearranjo, tais rearranjos constituem uma sucessão de inscrições e retranscrições. Entretanto, com as marcas ocorre algo diferente, sobretudo, nas vivências de dor. Quando a quantidade de excitação excede a capacidade de recepção e a captação egóica de energia, as marcas não passam pelos processos de retranscrições descritos na Carta 52 (Freud, 1950/1996d).

Os Fueros para além do princípio de prazer

Com esse breve apanhado consideramos ter os elementos necessários para procedermos à distinção entre traços e marcas – diferentes tipos de impressões psíquicas geradas conforme a capacidade egoica em dominar ou não a quantidade de excitação. O traço é a impressão que será ativada pela lembrança, está inscrito como representação. Quanto à marca, trata-se de um tipo de impressão que não participa da cadeia representativa, não podendo, portanto, ser evocada como uma lembrança, “mas como fator energético. Não se trata, portanto, de representação, mas de expressão de pura intensidade” (Knobloch, 1998, p.89). As marcas desencadeiam uma repetição desprazerosa, à qual o eu não consegue fazer frente por ultrapassar a sua capacidade de contenção, como no caso da vivência de dor apresentado no Projeto de 1895 (Freud, 1950/1996e). Tal tese encontra eco no escrito Além do princípio de prazer (Freud, 1920/2006b), quando da discussão sobre a compulsão à repetição das neuroses traumáticas.

Compreendemos que a Carta 52 (Freud, 1950/1996d) amplia a noção de memória presente no Projeto de 1895 (Freud, 1950/1996e), ao inserir um complexo sistema de retranscrições. Eis o esquema apresentado por Freud: a) Wahrnehmungen são os neurônios nos quais se originam as percepções e aos quais se liga a consciência; não retêm nenhum traço mnêmico do que aconteceu; b) nos signos de percepção (Wahrnehmungszeichen) do sistema psi (ψ) acontecem as primeiras inscrições dessas percepções, ainda inacessíveis à consciência e orientadas pelas associações por simultaneidade, aqui ocorre o primeiro registro mnêmico; c) no registro seguinte, nomeado como a inconsciência (Unbewusstsein), ocorre a segunda transcrição, ordenada não mais pelas associações por simultaneidade, mas provavelmente por associações de causalidade, também inacessíveis à consciência; d) o último registro citado, denominado de pré-consciência (Vorbewusstsein), no qual ocorre a terceira retranscrição ligada a imagens verbais (ligados a representação-palavra), corresponde ao “eu reconhecido como tal” (Freud, 1950/1996d, p.283), é o que torna o acesso ao consciente possível, de acordo com certas regras.

Notemos que há uma sucessão de transcrições realizadas em diferentes registros; cada transcrição ordena o material psíquico de acordo com uma nova lógica, de forma que a cada nova transcrição a anterior é inibida e aparta dela a quantidade vigente. Caso ocorra “uma falha na tradução” (Freud, 1950/1996d, p. 283) isso significa que algo precisou ser recalcado. Nesses casos o processo de tradução teria início, mas seria interrompido devido à emissão de desprazer. Concepção que nos indica uma forma de defesa do aparato psíquico para evitar o desprazer.

A partir do material apresentado na Carta 52 (Freud, 1950/1996d) o aparato psíquico passa a ser concebido em diferentes camadas pelas quais o material mnêmico o atravessa. Essa disposição denota o contraste entre os signos de percepção, por um lado, e registros da inconsciência e da pré-consciência, por outro. Tal diferença, conforme aponta Salztrager (2006), implica que temos: (1) as marcas não ligadas às representações, ou seja, que não sofreram processos de reordenamento, mantendo-se praticamente da mesma forma de quando foram constituídas e (2) os traços que sofreram retranscrições podendo advir à consciência desde que não despertem desprazer, já que fazem parte da cadeia de representações-palavra. Notemos que Freud concentra esse novo esquema em torno de noções como signo, inscrição e transcrição, que “estão muito mais próximas da linguagem e da escrita do que dos neurônios da formulação anterior” (Garcia-Roza, 1991, p.200).

Nesse contexto Derrida (1995) pontua que o “conteúdo do aparelho psíquico será representado por uma máquina de escrita” (p. 183). A partir da Carta 52 (Freud, 1950/1996d), o que Freud irá apresentar como conteúdo do aparelho psíquico são os signos, que serão inscritos e retranscritos, o que indica os diferentes períodos da vida nos quais o material é acessado; mas com a ressalva de que cada novo acesso implica uma nova transcrição. Por intermédio dessas observações destacamos, no aparato psíquico, a presença de um sistema de repetições ordenado pela diferença. O recordado não coincide com o acontecimento em si, mas é um produto de várias retranscrições. Como exemplo disso Freud (1950/1996e) apresenta o caso Emma, no qual o traumático se dá a posteriori como produto de uma série de retranscrições dos acontecimentos experienciados no âmbito de suas respectivas representações.

Conforme apontamos acima, as marcas caracterizam-se por não sofrer nenhuma tradução. Em tais casos, conforme explicitado na Carta 52 por Freud (1950/1996d), a excitação é manejada segundo as “leis psicológicas vigentes no período anterior e consoante as vias abertas nessa época. Assim, persiste um anacronismo: numa determinada região ainda vigoram os fueros, estamos em presença de sobrevivências” (p.283). Os fueros constituem um termo tomado de empréstimo de uma antiga lei espanhola aplicada em províncias conquistadas ou vilarejos que não possuíam senhorios; tal lei buscava regular a vida local, mantendo os costumes e tradições destes sítios e estabelecendo um conjunto de normas jurídicas, para garantir privilégios perpétuos à coroa sobre a região (Barrero-García, 1985).

De acordo com Salztrager (2006), os fueros são impressões psíquicas desregradas que não estão articuladas em uma trama de facilitações e, portanto, não sofrem todo procedimento descrito na Carta 52 (Freud, 1950/1996d), subsistindo como marcas psíquicas. Tal como os fueros da lei espanhola, os quais recolhiam os costumes de cada localidade onde eram aplicados e mantinham-se, stricto sensu, fora da política feudal vigente, as marcas mantêm-se fora dos sistemas de representações e das regras aplicadas a estas. Subsistem no aparato psíquico segundo outra determinação, donde a impossibilidade de mudanças de cenários, característica dos sonhos das neuroses traumáticas. “A ausência de ligações diretas com a representação-palavra do registro da pré-consciência também explicaria o fato de elas consistirem em algo que não pode ser expresso pela fala” (Salztrager, 2006, p. 93), o que nos leva a pensar que os fueros funcionam de acordo com o mecanismo de compulsão à repetição. Derrida (1995) vê nessa construção do aparato nervoso a condição para afirmar que a vida, afinal, busca a morte e a “repetição e o para além do princípio de prazer são originários e congenitais àquilo mesmo que transgridem” (p. 188). A saber, as facilitações, assim como todo o aparato, servem à função primária.

A partir do que foi exposto até o presente momento, compreendemos que no Projeto de 1895 (Freud, 1950/1996e) as grandes intensidades as quais o eu não consegue refrear, característica da vivência de dor, produzem marcas psíquicas, trazendo um limite ao aparato psíquico regido pelo princípio de prazer. Nessa perspectiva, as barreiras de contato não são acrescentadas à vida para mantê-la, pois no fundo visam seguir a inércia. As exigências da vida fazem o aparato tomar um caminho mais amplo, mas que no fim se dirige ao propósito de toda vida: a morte, tal como será abordado no Além do princípio de prazer (Freud, 1920/2006b).

De acordo com Caropreso & Simanke (2006) seguir o caminho mais facilitado é um fator mecânico dos processos nervosos, uma vez que as facilitações oferecem menor resistência à condução da energia, conforme a exigência da função primária. Desse modo a energia do processo primário (energia livre) poderia conduzir à reativação de representações que, mesmo em sua origem, produziram desprazer, o que ocorreria, sobretudo nos processos derivados da vivência de dor. Para evitá-la é necessária a ligação, a partir do eu, dessa quantidade que irrompe em estado livre. Configura-se aí a função do eu: mediar a energia livre que irrompe no aparato neuronal. Em outras palavras: evitar que certos caminhos sejam tomados (Antonello & Oliveira, 2011).

Contudo, para que isso ocorra é necessário que o eu realize uma mediação sobre as excitações, ou seja, é preciso dominar essa energia; a partir desse domínio será possível sua inscrição como representação. Caso esse domínio não ocorra, as excitações persistem como fueros ou marcas, remetendo para algo que escapa ao domínio do eu. Logo, essas excitações encontram-se fora do campo das representações e não podem ser atualizadas como lembrança. Nessa perspectiva podemos sinalizar a presença de experiências não inscritas, mas impressas, que ultrapassam a capacidade do eu de dominá-las. Experiências que permanecem indomadas (Freud, 1950/1996d) e retornam, justamente para que o eu possa dominá-las, sob a forma de compulsão à repetição.

A partir dessas observações é possível sinalizar com a Carta 52 (Freud, 1950/1996d) dois efeitos que a impressão pode causar no psiquismo. Tais efeitos serão diferenciados de acordo com a capacidade egoica em dominar a quantidade de excitação e transcrevê-la em representações, no caso dos traços. Algo diferente ocorre quando a quantidade de excitação rompe a para-excitação e, consequentemente ultrapassa a capacidade do eu em dominá-la; nesses casos se formará a marca, ou seja, um indicativo de que houve comprometimento no domínio pelo eu dessa quantidade que persistirá indomada no psiquismo. Tendo em vista essa questão, Herzog (2010) afirma que a concepção de aparelho psíquico fica “ampliada, sendo que a produção de representação (Vorstellung) não é sua única alternativa; em outros termos produzir uma narrativa encadeada não é a única saída” (p. 9), de forma que o aparelho psíquico comporta outra forma de expressão.

O limite da representação

É importante observar que a primeira tópica freudiana foi construída levando em conta o modelo da representação. Assim, Freud (1915/2006a) vai conceber o aparato psíquico “como sendo acima de tudo, um dispositivo destinado a dominar as excitações que de outra forma seriam sentidas como aflitivas ou teriam efeitos patogênicos” (p. 92). No “Projeto para uma psicologia científica” (1950/1996e) Freud utilizou o termo “mola pulsional” (p. 348), termo precursor do conceito de pulsão, para designar uma fonte de estimulação interna, constante, o que, segundo Garcia-Roza (1991), já indica uma concepção de aparato psíquico gerado com a função de dominar essa força que ameaça invadi-lo.

No escrito “Além de princípio de prazer”, Freud (1920/2006b) volta sua atenção para a neurose traumática e, consequentemente retoma a questão da dor, bem como outros temas do Projeto de 1895 (Freud, 1950/1996e), conferindo-lhes complexidade. Em 1920 (1920/200b), concebido à luz da compreensão das neuroses traumáticas, o trauma se caracteriza por uma ruptura do escudo protetor da para-excitação, escudo que protege o aparato psíquico das excitações externas. Diante da ruptura da para-excitação o aparato é inundado por um excesso pulsional, que coloca de lado o funcionamento do princípio de prazer, para realizar uma tarefa mais fundamental: a de dominar a excitação.

Toda vez que ocorre uma falha nessa tarefa fundamental é criada uma marca psíquica e junto a isso tem início um processo repetitivo, um modo defensivo, que não envolve qualquer possibilidade de prazer e não passa pelo crivo do recalque. Freud (1920/2006b) vai denominar esse processo de compulsão à repetição, peça chave para repensar alguns impasses de ordem clínica em sua teoria, e apresentar sua hipótese mais intrigante: a pulsão de morte.

Como no Projeto de 1895 (Freud, 1950/1996e), a dor é resultado de uma efração da para-excitação, isso significa que a dor é uma ruptura do escudo protetor em uma área limitada, rompimento que levará a um aumento brutal de tensão no interior do aparato. É importante observar que Freud (1920/2006b) caracteriza a neurose traumática como uma ruptura limitada, como rompimento de uma pequena parte do escudo; é nessa brecha aberta na defesa que a energia externa afluirá para o interior. A dor proveniente dessa ruptura constituir-se-á como uma fonte emissora de excitação, motivo pelo qual Freud (1915/2006a) chamou a dor de pseudo-pulsão. Isto porque a dor passa a se comportar como uma fonte interna e, sendo assim; torna-se impossível empreender uma fuga.

O trauma é definido como uma ruptura na para-excitação, e com isso “o princípio de prazer é, logo no início, colocado fora de ação” (Freud, 1920/2006b, p. 154). Assim o problema principal do aparelho psíquico é capturar a energia livre invasora, o que nos indica um modo de funcionamento do aparato fora do princípio de prazer. Para tanto Freud se serve da tese de Breuer (Freud, 1897/1996a) que admite duas formas distintas de energia nos sistemas psíquicos: cargas de investimentos que “fluem livremente e que pressionam para a descarga e cargas de investimento em repouso” (Freud, 1920/2006a, p. 155), conforme já apontado acima.

Frente ao excesso experienciado e o inundamento do aparato pelo montante de energia, o eu, pego de surpresa, não tem poder para refrear o impacto dessa experiência que se configura como uma marca psíquica, como um fuero, fora do funcionamento do princípio de prazer. Como não existe um meio de impedir que o aparato psíquico seja alvo constante das excitações, o problema central para a sobrevivência do sujeito é a defesa e a dominação dessa energia. É através da ligação que a energia pulsional pode assumir formas organizadas e ser representada psiquicamente. Ligar consiste em amarrar a energia pulsional a certos conteúdos; significa um freio, uma contenção dessa energia.

A partir da ligação da energia pulsional, ou seja, de sua representação, é possível construir uma narrativa que serve para ordenar os acontecimentos vividos ou fantasiados em uma sucessão histórica e temporal, permitindo assim dar um sentido a uma vivência. Através da simbolização, o representante pulsional deve encontrar uma expressão diferente da compulsão à repetição. Entretanto, caso não seja possível realizar processos de simbolização, ou seja, caso o eu não consiga efetuar essa ordenação, temos aí algo caótico, estranho ao eu, conhecido como o irrepresentável.

Frente ao trauma a perspectiva de futuro vai se apagando diante de uma necessidade bem mais urgente: a sobrevivência. A consequência de uma vivência traumática, na maioria dos casos, é a destruição da capacidade de discernir entre o real e o irreal, ocorrendo uma fragmentação (clivagem) no eu. Tal ferida implica “uma impressão repentina, muito forte, de não ter escapado à morte, mas tê-la atravessado” (Seligmann-Silva, 2008, p.94). O trauma é uma ferida aberta no eu por um acontecimento violento que o impede de ser elaborado simbolicamente configurando as marcas psíquicas. Ocorre, então, um congelamento do experienciado, devido à singularidade do evento ultrapassar a capacidade do eu em absorvê-lo. O excesso presente nessas vivências dolorosas impossibilita a sua representação, de forma que o evento traumático subsiste de forma literal, não dominado e retorna sob a forma de uma compulsão à repetição.

O irrepresentável aponta para uma dificuldade em encontrar na linguagem uma forma de traduzir o excesso vivido. Nas neuroses traumáticas encontramos formas de manifestação desse excesso que fogem por completo aos casos tradicionais de neurose. Consideramos que o percurso realizado neste artigo nos permitiu elucidar a discussão do que está para além do aparelho psíquico tal como apresentado em 1920 (Freud, 1920/2006b). Para tanto, escolhemos abordar a descrição do aparelho neuronal, tema do Projeto de 1895 (Freud, 1950/1996e), juntamente com uma releitura da Carta 52 (Freud, 1950/1996d), na qual Freud apresenta uma complexificação da memória. Ao trilhar esse caminho entendemos que a memória tem um lugar central no arcabouço teórico e clínico da psicanálise freudiana, e que é possível fazer uma distinção entre o traço mnêmico e a marca psíquica. Essa última identificada a partir da ideia dos fueros (Freud, 1950/1996d) como um lugar no psiquismo fora do campo das representações e não consoante com as diretrizes do princípio do prazer. Nessa perspectiva o psiquismo passa a ser concebido de forma ampliada, contendo figuras que apontam um modo de funcionamento para além do princípio de prazer.

Referências

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Submetido em: 20/11/2011
Revisto em: 12/01/2012
Aceito em: 12/02/2012

 

Endereços para correspondência

Diego Frichs Antonello
dfantonello@yahoo.com.br


Regina Herzog
rherzog@globo.com

 

i O presente texto refere-se à pesquisa apoiada pela CAPES, a qual os autores agradecem.

I Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

II Docente. Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica da Universidade Federal do Rio de Janeiro.




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