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ARTIGOS

 

A estrutura da personalidade: um estudo sobre Goldstein e Vigotski

 

The structure of personality: a study on Goldstein and Vygotsky

 

La estructura de la personalidad: un estudio sobre Goldstein y Vygotsky

 

 

Hernani Pereira dos SantosI; João Batista MartinsII

IDocente. Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Londrina. Estado do Paraná. Brasil
IIDocente do Programa de Pós Graduação em Psicologia e Sociedade. Universidade Estadual de São Paulo (UNESP). Assis. Estado de São Paulo. Brasil.

Endereços para correspondência

 

 


RESUMO

Este estudo teórico busca compreender a relação entre as ideias de Vigotski e de Goldstein. O objetivo é oferecer uma aproximação das ideias dos dois autores através da exposição e análise das teses fundamentais de cada quadro interpretativo no que diz respeito ao conceito de personalidade. Consiste em três partes. Na primeira, faz-se uma exposição das pesquisas de Gelb e de Goldstein sobre a afasia. Na segunda, é feita uma apresentação das teses gerais da teoria organísmica de Goldstein. E na terceira, desenvolve-se uma análise de pontos de divergência e de convergência da teoria de Vigotski com respeito a determinadas teses de Goldstein. Como conclusão, argumenta-se que as duas teorias divergem em termos de metodologia e de ontologia, mas se complementam, em diferentes níveis de complexidade, e se aproximam em seu motivo-condutor epistemológico.

Palavras-chave: Kurt Goldstein; História da psicologia; Personalidade; Lev Semenovich Vigotski.


ABSTRACT

This theoretical study aims for an understanding of the relationship between the ideas of Vygotsky and of Goldstein. Its objective is to present a rapprochement of the ideas of both authors through the exposition and analysis of the fundamental theses of each interpretative framework in what concerns the concept of personality. The study is composed of three parts. The first consists of an exposition of Gelb and Goldstein's researches on aphasia. The second consists of a presentation of general theses of Goldstein's organismic theory. The third part consists of an analysis of points of divergence and convergence of Vygotsky's theory with respect to certain Goldstein's claims. As a conclusion, it is argued that the two theories differ in terms of methodology and ontology, but that they complement each other, in different levels of complexity, and are close in their epistemological leitmotiv.

Keywords: Kurt Goldstein; History of psychology; Personality; Lev Semenovich Vigotski.


RESUMEN

Este estudio teórico busca comprehender la relación entre las ideas de Vygotsky y de Goldstein. Su objetivo es presentar una aproximación de las ideas de ambos autores a través de la exposición y análisis de las tesis fundamentales de cada marco de interpretación en lo que se refiere al concepto de personalidad. El estudio consiste en tres partes. Primero, se hace una exposición de las investigaciones de Gelb y de Goldstein respecto a la afasia. Segundo, una presentación de las tesis generales de la teoría organísmica de Goldstein. Y tercero, un análisis de los puntos de divergencia y convergencia de la teoría de Vygotsky con respecto a ciertas tesis de Goldstein. Como conclusión, se argumenta que las dos teorías difieren en cuanto a la metodología y la ontología, aunque se complementan entre sí, en diferentes niveles de complejidad, y están cerca en su leitmotiv epistemológico.

Palabras clave: Kurt Goldstein; Historia de la psicología; Personalidad; Lev Semenovich Vigotski.


 

 

Introdução

Nos últimos anos, as pesquisas sobre a história conceitual da Psicologia Histórico-Cultural soviética encontraram um terreno fértil nas relações existentes entre os seus membros, particularmente Vigotski1 e membros da Psicologia da Gestalt, sobretudo da Escola de Berlim. Um dos estudos pioneiros, nesse contexto, talvez tenha sido o de Van der Veer e Valsiner (1991). Mais recentemente, autores como Yasnitsky (2012a, 2012b) e Proctor (2013) trouxeram, novamente, a temática ao centro da atenção da comunidade científica. Com base nesses estudos, Yasnitsky (2012a, 2012b) pôde sustentar a ideia de uma Psicologia Histórico-Cultural Gestáltica. Embora seja apenas um conceito do ponto de vista desse historiador, visto que a concretização de um programa sintético que articulasse ambas as perspectivas jamais ocorreu realmente, permanece no horizonte a expectativa de uma "grande síntese das ideias das duas escolas de pensamento" (Yasnitsky, 2012b, p. 11).

Tendo em vista a proficuidade das pesquisas dessa orientação, o interesse deste estudo se concentra na relação entre as ideias de Vigotski e as de Goldstein, um neurologista alemão próximo da Psicologia da Gestalt, mas que desenvolveu uma teoria própria (Ash, 1998). Esse tema é de inteiro interesse para a elucidação da história da psicologia soviética e da psicologia alemã, visto ter havido uma real troca de ideias entre os autores (Hanfmann, 1968). Além disso, essa questão pode contribuir com o quadro de uma possível síntese entre as ideias dos dois autores. Todavia, não são muitos os trabalhos que se dedicam ao assunto. Até o momento, apenas os trabalhos de Hanfmann (1968) e de Van der Veer e Valsiner (1991) tomam-no como tema específico de pesquisa. No mais, encontramos comentários episódicos em Black e Overton (1990), Kozulin (1990), Robbins (2001) e Pass (2005).

Nosso estudo parte da sugestão de Hanfmann (1968). A autora sugere haver uma proximidade entre as teorias de Vigotski e de Goldstein, indicando, para isto, a semelhança entre os conceitos de função psicológica superior, do primeiro, e de atitude categorial, do segundo. O nosso objetivo é o de oferecer uma primeira abordagem à aproximação das ideias dos dois autores através da exposição e análise das teses fundamentais de cada quadro interpretativo no que diz respeito ao conceito de personalidade. Começamos pela exposição das pesquisas de Gelb e de Goldstein sobre a afasia, onde forjam os conceitos de atitude abstrata e de comportamento concreto e os correlacionam à ideia de totalidade do comportamento e da personalidade. Depois, apresentamos algumas teses gerais da teoria organísmica de Goldstein, sobretudo no que diz respeito ao conceito de organismo como uma totalidade. E, por fim, analisamos alguns pontos de divergência e de convergência da teoria de Vigotski com respeito a algumas teses de Goldstein, dando especial ênfase à sua teoria histórico-cultural da personalidade.

 

Os estudos sobre a afasia

Os principais estudos de Goldstein aconteceram em uma vila próxima a Frankfurt, Alemanha, onde ele estabeleceu um hospital para soldados com lesões cerebrais e, com a ajuda do psicólogo Gelb, realizou diversas pesquisas sobre a correlação entre as lesões cerebrais e o comportamento de seus pacientes, vindo a desenvolver métodos de avaliação e de reabilitação para os mesmos (Ash, 1998). A princípio, seu método clínico era muito semelhante aos utilizados pelos psicólogos da Escola de Berlim para o estudo da percepção. Particularmente, o taquistoscópio, adaptado por Wertheimer, foi utilizado por Gelb e Goldstein como ferramenta diagnóstica (Gelb & Goldstein, 1925), geralmente como complemento aos testes de memória, de atenção e de concentração. De acordo com o procedimento comum, pedia-se aos pacientes que relatassem aquilo que viam, tal como projetado pelo taquistoscópio, sem atribuição causal (Ash, 1998, p. 278). Igualmente, baseavam-se no autorrelato de seus pacientes (Gelb & Goldstein, 1918/2005), na observação clínica (Gelb & Goldstein, 1924/1971), com exames simples sobre o uso da linguagem, da memória etc., e no uso de testes (Bolles & Goldstein, 1938).

A afasia foi o principal fenômeno patológico estudado pelos autores. A teoria clássica afirmava, conforme Goldstein (1950), que a afasia amnésica, por exemplo, consistiria na dissociação entre as imagens de objeto e as imagens de palavra e repousaria especialmente na dificuldade do doente em evocar palavras. Com efeito, a teoria clássica supunha que a linguagem seria composta por, de um lado, imagens correspondentes aos objetos, aos pensamentos e aos sentimentos, e, de outro lado, imagens motoras e imagens sensoriais das palavras. Sobre essa base, era possível afirmar que a execução da linguagem e a sua compreensão corresponderiam meramente à reprodução daquelas imagens e que, portanto, a afasia corresponderia a uma deficiência da memória. Ainda, supunha-se que essas imagens estariam alocadas em áreas específicas do cérebro correspondentes a faculdades linguísticas discretas e bem definidas (Goldstein, 1946). Então, a afasia motora e a afasia amnésica eram explicadas a partir do fenômeno da destruição do centro correspondente às funções no cérebro, o qual, por sua vez, seria circunscrito de maneira unívoca (o centro da fala, o centro motor etc.). Contudo, alguns fenômenos característicos, como, por exemplo, a "afasia transcortical" e a "afasia de condução" (Goldstein, 1950, p. 25) e, também, a manifesta capacidade dos doentes em compensar a perda de suas funções por lesões (Ash, 1998, p. 277), falaram contra tal teoria e serviram de motivo para o desenvolvimento de uma "nova teoria organísmica" (Goldstein, 1950, p. 25), holística, dos fenômenos afásicos.

Gelb e Goldstein (1924/1971) chegaram a conclusões contrárias à teoria clássica em seu estudo sobre a amnésia dos nomes de cores. Para tanto, basearam-se na observação de seus pacientes em situações nas quais lhes propunham cumprir uma tarefa. Uma delas consistia em pedir aos doentes que distinguissem as cores de objetos a eles apresentados e que as nomeassem, outra consistia em pedir que ordenassem objetos coloridos segundo um princípio dado. No geral, os pacientes eram incapazes de utilizar corretamente os nomes das cores, apesar de serem capazes de nomeá-las. Podiam, por exemplo, nomear um objeto vermelho como vermelho-cereja levando em conta apenas a proximidade da vivência de cor de tal objeto com a de um objeto concreto e familiar semelhante, sem referir-se à categoria de cor vermelha. Além disso, eles eram incapazes de classificar as cores ou os objetos coloridos de acordo com categorias. Aproximavam objetos de cores distintas selecionando apenas aspectos específicos, como sua proximidade, claridade ou delicadeza, e, em alguns casos, passavam de um critério a outro no decorrer da mesma atividade. Algo semelhante foi notado pelos autores em outros casos de afasia não restritos aos nomes de cores. Por exemplo, às vezes, pacientes recorriam a perífrases, isto é, rodeios, para nomear um objeto. Diante de um guarda-chuva, um paciente dizia: "Eu não sei como isto se chama; eu também tenho um guarda-chuva em casa" (Goldstein, 1933/1969, p. 303). Outro, diante de uma caneta, dizia: "isto é para escrever" (Goldstein, 1933/1969, p. 303).

A pessoa adulta normal é capaz de destacar ou abstrair a cor particular das associações intuitivamente dadas na situação concreta e de tomá-la como representante de uma categoria de cor, como o vermelho, o azul, o verde, a qual abrange um amplo espectro de tonalidades diferentes em um só grupo conceitual. A percepção do doente está, pelo contrário, atada ao ser assim da cor intuitivamente dada, por conseguinte, às particularidades fenomênicas, intuitivas e práticas que fazem dela um evento singular. Compreendido dessa forma, o comportamento do doente foi descrito pelos autores como "irracional, concretamente vívido, vividamente familiar, biologicamente mais primitivo" (Gelb & Goldstein, 1924/1971, p. 83). Gelb e Goldstein (1924/1971) o nomearam, por isso, "comportamento concreto" (p. 83). Desse ponto de vista estrito, o que falta ao doente é a capacidade de abstrair, isto é, de destacar um atributo de cor específico de um objeto e tomá-lo como representante de uma categoria. Essa capacidade corresponde, por sua vez, ao que os autores chamaram de "atitude categorial" (Gelb & Goldstein, 1924/1971, p. 100).

De um ponto de vista mais geral, estava ausente do comportamento dos afásicos qualquer princípio de ordenação conceitual e qualquer possibilidade de mudar de ponto de vista. Os pacientes estabeleciam a relação de semelhança entre os objetos com base em critérios imediatamente intuitivos e práticos. Eles ainda tinham as palavras, principalmente aquelas que lhes eram familiares, mas não eram capazes de usá-las com sentido. Isto prova que a afasia não consiste em uma deficiência intelectual e que não pode ser reduzida à ausência de imagens. A tese de Gelb e Goldstein (1924/1971) é a de que ela consiste em uma alteração de ordem superior relativa ao comportamento global do doente, à sua relação com o mundo e, portanto, mais a seu modo de usar as palavras do que à ausência delas. Em suma, os pacientes haviam perdido a capacidade de se referir à ordem conceitual, haviam perdido o que chamaram de "comportamento categorial" (Gelb & Goldstein, 1924/1971, p. 86). Em uma formulação posterior, Goldstein (1934/1995) referiu-se a essa alteração como perda da "capacidade em lidar com o que não é real - com o possível" ( p. 44). Em última análise, é o comportamento voluntário do doente que é mais afetado. Ele passa de um nível mais diferenciado e articulado de conduta a um nível mais amorfo e indiferenciado (Goldstein, 1934/1995). Desse ponto de vista, a doença deve consistir, portanto, em uma modificação da personalidade integral do doente e não na perda de capacidades isoladas. Este é um princípio que será amplamente desenvolvido por Goldstein (1934/1995) em sua teoria organísmica.

 

A teoria organísmica de Goldstein

Na teoria de Goldstein (1934/1995), é o conceito de organismo que permite compreender o significado de cada fenômeno singular como uma expressão da personalidade integral dos indivíduos, como no caso dos afásicos. Tal conceito permite colocar em balanço crítico os pressupostos do método analítico das teorias clássicas. Segundo esse método, a correta compreensão do fenômeno biológico e patológico deveria repousar sobre a decomposição e a dissecção do organismo em partes (partes morfológicas, órgãos, funções etc.) e essas partes deveriam ser temas independentes, cujo valor explicativo e ontológico seria autossuficiente (Ferrario & Corsi, 2013). Por exemplo, segundo a teoria reflexológica, o reflexo seria um fenômeno local, dependente do sistema periférico e relativamente independente do restante do sistema nervoso. O reflexo seria apenas a manifestação isolada da ação unilateral e pontual de um estímulo sobre áreas específicas de tal sistema, conectadas a funções específicas (Goldstein, 1934/1995). E, segundo a psicopatologia clássica, os sintomas patológicos da afasia, por exemplo, seriam manifestações discretas correlativas a lesões de faculdades linguísticas funcionalmente e anatomicamente bem circunscritas (Goldstein, 1936). Contrariamente a tais pontos de vista, Goldstein (1934/1995) desenvolveu um método holístico e uma teoria organísmica para a compreensão dos fenômenos em estudo.

 

O organismo como Gestalt

Para essa teoria, o fenômeno vital só pode ser compreendido partindo-se da ideia de totalidade, de complexidade, e jamais a partir do mais simples, no caso, do reflexo (Goldstein, 1934/1995). De tal ponto de vista, o organismo não pode ser compreendido como uma justaposição de partes articuladas (membros, órgãos e sistemas de órgãos). Antes, ele deve ser compreendido como uma Gestalt, como o "sistema total articulado e centralizado de suas partes" (Gurwitsch, 2009, p. 78). Toda manifestação vital encontra significado apenas com relação a esse sistema. Mesmo os estímulos aos quais o organismo responde não podem ser considerados fora da esfera de sua significação biológica. Não apenas os órgãos selecionam os estímulos aos quais estão suscetíveis (os olhos à luz, o nariz ao odor etc.), mas o significado da constelação de estímulos depende das condições concretas nas quais se encontra o organismo. Nesse sentido, não há, para o organismo, estímulos neutros, cuja ação provocaria sempre a mesma resposta, de maneira unívoca. Pelo contrário, o organismo é suscetível apenas aos estímulos que possuem significado funcional para ele próprio em determinada situação (Goldstein, 1934/1995, p. 177).

A noção de organismo de Goldstein (1934/1995) implica, ainda, que cada indivíduo tende a realizar as suas possibilidades de ação e de regulação da melhor maneira possível em um momento dado. A realização ótima da ação de um organismo em uma situação é chamada pelo autor de "comportamento privilegiado" (Goldstein, 1934/1995, p. 287). Dessa forma, para o autor, todo ser vivo tende a uma constância estrutural e funcional, mesmo quando as circunstâncias externas se modificam, para a melhor realização de suas possibilidades. Para designar tal lei, Goldstein (1934/1995) utiliza os termos equalização, centramento, autorrealização, e boa forma. Todo organismo tende a esse estado ótimo e esse estado é a norma individual desse organismo concreto, o que permite julgar as suas realizações em termos de saúde e de doença.

Isto não significa, contudo, que a tendência básica do organismo seja a autopreservação ou o equilíbrio. Goldstein (1934/1995) rejeita essa tese. Para ele, a saúde de um organismo consiste em um estado constante de tensão, de modo que ele pode confrontar as modificações do ambiente e criar novos meios de ação e de harmonia. É por essa via que o comportamento saudável é ordenado e a melhor reação pode ser selecionada para a situação com a qual se defronta. O organismo saudável é capaz de responder adequadamente às solicitações do meio ambiente e de manter um nível ótimo de autorregulação.

Nessa direção, os comportamentos do organismo são entendidos por Goldstein (1934/1995, p. 125) como diferenciações da estrutura total em termos de "figura" e de "fundo", assim como a figura ambígua de E. Rubin (1921), que são, também, exemplares da Gestalttheorie. Segundo esse princípio, um comportamento particular ou uma parte do organismo pode ter o significado de figura ao se diferenciar da configuração total e funcionar como predominante, ou de fundo quando atuar de maneira coadjuvante e mais ou menos indiferenciada. Isso vale para todos os processos organísmicos. É em função das demandas de uma situação dada e das condições internas do organismo que uma das atitudes desempenha o papel de figura ou de fundo. No organismo saudável, o comportamento adequado para responder à situação e manter o equilíbrio torna-se figura, destacando-se de seu fundo sinérgico de atividade.

 

A personalidade do doente

A partir do princípio do organismo como Gestalt, Goldstein (1934/1995) concebe a personalidade do doente como um todo que se encontra alterado e que responde à doença por seus próprios meios. As possibilidades de autorrealização do doente se encontram "encolhidas", os seus níveis de liberdade, reduzidos, e a sua harmonia com o mundo, "defeituosa" (Goldstein, 1934/1995, p. 372). Todavia, isso não significa que a existência do doente se caracteriza apenas pela desordem ou pelas perdas. A partir do princípio da boa forma, Goldstein (1934/1995) concebe como essencial o fato de que a personalidade total do doente enfrenta a doença ativamente e como um todo. De tal modo que se produz uma nova ordem, uma nova norma individual, uma nova relação com o mundo. Toda a terapêutica goldsteiniana se orienta por esse princípio.

Na personalidade do doente a relação entre figura e fundo se encontra alterada. O doente responde a situações complexas por meio de automatismos, por meios indiretos, ou, quando é incapaz de resolver um problema, busca fugir da situação potencialmente catastrófica. Nesse caso, a relação entre os dois níveis de comportamento se torna "desorganizada", sofre uma "desdiferenciação" (Goldstein, 1950, p. 33). Isso se deve, sobretudo, à privação do controle funcional do nível superior de comportamento sobre o nível inferior, de modo que o resultado é o predomínio de um automatismo. É nesse sentido que se pode falar que o comportamento do doente é caracterizado por certa desordem, especialmente quando é confrontado por situações que estão além de suas possibilidades de auto atualização: além de seus limiares de excitação, acima de suas capacidades comportamentais e assim por diante. Com isso, compreende-se que o significado funcional de uma tarefa que é colocada pelo meio depende das possibilidades de auto atualização do organismo (Goldstein, 1934/1995, p. 300). O reflexo, por exemplo, é um fenômeno derivado da fragmentação do organismo pela doença e, como tal, é uma resposta artificial e patológica, derivada da alteração da condição unitária do organismo.

As situações que excedem as capacidades do organismo são chamadas pelo autor de "situações catastróficas" e as reações correspondentes de "reações catastróficas" (Goldstein, 1934/1995, p. 48). Se a norma individual é estabelecida pelas possibilidades de auto atualização do organismo como um todo, o comportamento do doente é caracterizado pelo desajustamento das possibilidades de auto atualização, em um descompasso entre organismo e meio. Nesse sentido, é apenas sobre o doente que se pode dizer que tende à preservação da vida. Isto porque, para encontrar a melhor harmonia entre as suas possibilidades e as requisições do meio, ele evita as situações catastróficas e tende a buscar aquelas situações que demandam menos dele. Se a pessoa normal pode apresentar dificuldades semelhantes diante de situações nas quais os estímulos são exageradamente potentes, para o doente, mesmo as situações que antes lhe eram familiares passam a ser geradoras de ansiedade e ocasionam, por conseguinte, comportamentos desordenados. No geral, o doente é incapaz de superar essas situações pelos meios antigos e, por isto, tende a usar meios alternativos ou de fuga para confrontá-las. É por conta dessa diminuição de suas capacidades e por conta da tendência a evitar as situações previamente familiares que se pode dizer que o doente "reduz" o mundo ao qual está sujeito (Goldstein, 1934/1995, p. 337).

 

A organização do sistema nervoso

Na teoria de Goldstein (1934/1995), o sistema nervoso é um caso particular de relação figura-fundo. Para ele, em cada comportamento, o cérebro como um todo está em atividade, mas a sua excitação está distribuída conforme uma configuração definida, em parte para uma função particular, a figura, e em parte para o restante do córtex, o fundo. A localização está particularmente ligada a essa distribuição de excitação e na contribuição de cada área para o processo como um todo (Goldstein, 1934/1995).

As lesões cerebrais não resultam na perda de comportamentos isolados, mas na desintegração sistemática de formas de comportamento (Goldstein, 1934/1995, p. 45). Para o autor, são as formas mais complexas e diferenciadas que sofrem primeiro. Há uma série de alterações resultantes da "desdiferenciação" do comportamento na patologia, seu rebaixamento a um nível menor de complexidade, "o efeito do surgimento do limiar, o retardamento da excitação, o distúrbio da relação normal entre o processo de figura e fundo e outras mudanças na função" (Goldstein, 1946, p. 31).

Certamente, há particularidades para lesões em áreas específicas, segundo Goldstein (1946). Por exemplo, no caso da lesão das partes periféricas do córtex, a desdiferenciação atinge apenas a função relacionada à área envolvida. E no caso de lesão das partes centrais, particularmente dos lobos frontais, todos os campos funcionais são afetados. Nesse caso, os processos superiores estão envolvidos. Em tal caso o comportamento superior é mais afetado, visto que essas áreas são as que mais contribuem para a configuração figura-fundo, mais complexa, subjacente à atitude abstrata (Goldstein, 1946).

 

A perspectiva da psicologia genética de Vigotski

Uma parte significativa das pesquisas psicológicas de Vigotski centra-se sobre o problema do desenvolvimento das chamadas "formas superiores de comportamento" ou "funções psíquicas superiores" (Vygotski, 1931/1995, p. 12). Este problema está na base da "nova psicologia genética", proposta pelo autor e por Luria (Vigotski & Luria, 1996, p. 54), que se oporia ao ponto de vista clássico. Essa abordagem parte de alguns princípios heurísticos comuns à teoria de Goldstein, mas não sem formular, de maneira inédita, determinados problemas a seu respeito.

 

O problema do todo e de sua análise

Segundo as teorias clássicas, a memória lógica, a memória voluntária, a imaginação criativa, o pensamento por conceitos, as sensações superiores, a vontade projetiva, ou seja, as funções psíquicas superiores seriam regidas pelas mesmas leis mecânicas de associação das funções elementares, como a memória mecânica, a atenção involuntária, a imaginação reprodutora, o pensamento figurativo, as sensações inferiores, a vontade impulsiva. Ou seriam autossuficientes e, por isso, independentes das leis naturais, emanando da atividade do espírito. Nos dois casos, as formas superiores da conduta seriam apenas um "mosaico de objetos sólidos e invariáveis" (Vygotski, 1931/1995, p. 106), amarrado às leis eternas da natureza ou mesmo às leis eternas do espírito. O desenvolvimento da personalidade seria, por isso, redutível a um processo de soma aritmética, por exemplo, um acúmulo de experiência, e a uma "cadeia mecânica de reações" (Vygotski, 1931/1995, p. 16). Por conseguinte, entre as formas superiores e as inferiores haveria apenas uma diferença quantitativa de elementos ou de agrupamento de elementos. A análise desse processo repousaria, então, por fim, totalmente na decomposição dos processos complexos em processos mais simples, isolados e independentes, os quais comporiam, por seus nexos associativos, os processos de ordem superior (Vygotski, 1931/1995).

Como Goldstein e a tradição gestaltista (Ash, 1998), Vigotski denunciou, na teoria mecanicista, o problema de reduzir as formas complexas do comportamento às simples e a ausência de um princípio que permitisse explicar a significação de cada fenômeno no interior de um todo complexo, com propriedades peculiares e irredutíveis às das partes (Vygotski, 1931/1995). O princípio básico que o autor comungou com os gestaltistas é o de que os processos psíquicos superiores, como outros processos complexos, não se estruturam pela união associativa de processos elementares, mas possuem leis próprias de formação e de funcionamento. Podemos antecipar dizendo que é o princípio de organização sistêmica, presente na ideia de Gestalt, e não o modo como ele é interpretado, que aproxima Vigotski da Gestalttheorie.

De fato, o conceito de sistema funcional, desempenha, na teoria de Vigotski (1930/2004a) sobre o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, um papel semelhante ao conceito de organismo na teoria de Goldstein (1934/1995). Ambos os conceitos permitem enfrentar os problemas legados pela teoria mecanicista e atomista e possuem uma conotação holística. Particularmente, na teoria de Vigotski os conceitos de sistema e de função destacam a organização que surge no processo de desenvolvimento formando um sistema funcional regular, a personalidade. E também a relação de cada formação psíquica com o todo complexo do qual faz parte, em termos estáticos e dinâmicos (Vygotski, 1931/1995; Vigotski, 1930/2004a).

No entanto, apesar de a teoria de Vigotski concordar com a de Goldstein em muitos aspectos, sobretudo no reconhecimento da personalidade integral, é preciso ressaltar que há uma divergência fundamental entre as duas. A abordagem de Vigotski sobre a organização sistêmica da personalidade consiste em uma teoria histórica das funções psíquicas superiores (Vygotsky, 1934/1965). O seu princípio diretor é o de que "os processos mentais superiores são sistemas funcionais dotados de sentido" (Vygotsky, 1934/1965, p. 382). Seus dois conceitos fundamentais referem-se, pois, à estrutura sistêmica e à estrutura sêmica da consciência (Vygotsky, 1933/1987). Para Vigotski (1931/1995), com efeito, a psicologia gestáltica restringiu-se à mera "descrição fenomenológica" (p. 103) e perdeu de vista o problema genético que subjaz às formações acabadas do comportamento, assim como o papel metodológico da análise (Vygotski, 1931/1995). Para o autor, a análise psicológica deve ser repensada de modo a unificar, em um quadro dinâmico, o método analítico e o enfoque integral da personalidade. Esse ponto de vista sintético permitiria conceber que a análise não corresponde necessariamente à decomposição do todo complexo em elementos isolados, sempre redutíveis a outros elementos, mas que pode ser concebida em termos de unidades que, apesar de serem destacadas do todo, conservam as suas propriedades como partes dependentes (Vygotsky, 1934/1965; Vygotski, 1931/1995). Esse quadro teórico geral conduz a uma interpretação diferente de vários problemas particulares. Passemos à análise de alguns desses problemas.

 

A localização das funções no cérebro

De acordo com Vigotski, o problema do todo e das partes foi abordado de maneira equivocada por Goldstein no que diz respeito à localização das funções cerebrais (Vygotsky, 1934/1965). Ele foi colocado, contudo, de maneira eminentemente epistemológica. No texto citado, Vigotski tinha em vista, sobretudo a tese atribuída por ele a Goldstein, de que haveria duas funções para cada zona do cérebro, uma específica, ou figura, e outra inespecífica, ou fundo, incluída em todo processo psíquico.

Em seus aspectos mais gerais, as ideias desenvolvidas por Vigotski no referido artigo sobre a relação entre o cérebro e as funções psíquicas estavam de acordo com as de Goldstein (1946, 1934/1995). No entanto, discordava da tese de que, paralelamente à função atuante específica, a atividade do restante do cérebro seria de uma cooperação indistinta, equipotente. Antes, para Vigotski (Vygotsky, 1934/1965), havia diferentes tipos de relações entre as áreas para as diferentes funções e não apenas um modo indiferenciado de fundo. Nesse sentido, comparada à posição de Goldstein (1946), a de Vigotski era um acentuado esforço em demonstrar a complexidade das interrelações dinâmicas das diferentes zonas diferenciadas e hierarquicamente organizadas do cérebro que se escondem sob o conceito de fundo, que torna tudo isso um processo homogêneo (Vygotsky, 1934/1965).

Certamente, Vigotski reconhece que as análises estruturais contribuíram para a descrição das interrelações complexas de zonas separadas. Mas, ao mesmo tempo, afirma que seus conceitos psicológicos são vagos, assim como, paralelamente, o são os conceitos puramente mecânicos de inibição ou de excitação que a reflexologia atribui aos centros superiores. A partir dessa perspectiva, os conceitos de "primitivo" e de "complexo", usados por Gelb e Goldstein (1924/1971, p. 65), são também considerados vagos, por serem meramente descritivos.

Nesse caso, os conceitos descritivos são aqueles que podem explicitar a diferença entre dois níveis no comportamento, um inferior e outro superior e complexo, mas não podem ir além da atestação de que essa diferença é inerente às próprias capacidades do organismo, como um ser biológico, certamente integral e complexo, como parece sugerir a teoria de Goldstein.

A esse respeito, em particular, Vigotski (1930/2004a) desenvolve uma crítica da interpretação naturalista fornecida por Gelb e Goldstein (1924/1971) sobre o comportamento concreto dos afásicos. Particularmente, o autor coloca em questão a associação entre a alteração no comportamento dos afásicos, de base fisiológica, e a forma de pensamento das pessoas primitivas. De acordo com Vigotski (1930/2004a, p. 129), isto significa afirmar que há uma "diferença estrutural" entre o cérebro do primitivo e o da pessoa ocidental moderna.

A psicologia genética (Vygotski, 1931/1995) lança luz sobre o fato de que não há, realmente, uma diferença biológica básica entre os dois tipos psicológicos, mas, antes, uma diferença quanto aos meios culturais, técnicos e ideológicos que constituem os sistemas psicológicos dos povos primitivos e dos povos modernos. É por isso que o modo de existência dos dois é tão diferente e, aparentemente, incomensurável. O modo de existência dos povos primitivos pode parecer corresponder ao do afásico por seu caráter concreto e "pré-lógico", conforme o interpretam Gelb e Goldstein (1924/1971), mas esta é apenas uma similitude fenotípica. Do ponto de vista psicogenético, revela-se que as estruturas técnicas e ideológicas dos povos primitivos têm por base a mesma capacidade categorial que os povos modernos, ao passo que o doente sofreu uma alteração em suas capacidades. A tese principal aqui em disputa é a de que a história cultural da humanidade não está baseada na alternância do tipo biológico, das funções naturais, mas em sua constância, e na alternância de funções que são mais plásticas e, por isto, mais recentes na história da espécie.

Do ponto de vista de Vigotski, o que muda são as relações entre as funções psicológicas e não as próprias funções biológicas. A plasticidade das relações interfuncionais, no cérebro e no comportamento, é a condição de surgimento dos novos sistemas funcionais, das combinações que não existiam de antemão, que caracterizam o comportamento especificamente humano e, em particular, a personalidade (Vigotski, 1930/2004a; Vygotsky, 1934/1965). Com base nisso, compreende-se que, em cada contexto, as mesmas funções possam ter um significado distinto sem que haja, necessariamente, uma alteração orgânica relevante. O modo de vida das pessoas de Loango (Gelb & Goldstein, 1924/1971, p. 65), por exemplo, pode ser interpretado como mais concreto devido a essas alterações funcionais de nível superior e não no que diz respeito às funções naturais. A diferença não gira em torno das capacidades próprias a cada tipo psicológico, mas no uso que o indivíduo faz de suas capacidades e nas transformações dessas capacidades tal como provocadas pela cultura. Os conceitos psicológicos de Goldstein (1934/1995) permanecem construções abstratas enquanto não se reconhece a diferença fundamental entre a linha de desenvolvimento natural, ou da espécie, e a linha de desenvolvimento cultural e, a partir dela, o processo de diferenciação das funções elementares em funções superiores tal como é possibilitado pelas condições técnicas e ideológicas de uma cultura. O impasse a que conduz essa teoria só pode ser resolvido, de fato, por uma nova teoria que jogue luz sobre o fato da diferenciação dinâmica das funções no cérebro e no comportamento e de sua construção hierárquica, a partir do reconhecimento da referida diferença entre as duas linhas e da plasticidade biológica, que embasa a variabilidade dos sistemas psicológicos. A partir da perspectiva de Vigotski isso significa que é necessário ir além da concepção de personalidade integral.

 

As camadas de constituição genética da personalidade

A princípio, a personalidade do adulto aparenta ser homogênea, visto que os processos naturais e culturais constituem, na ontogênese, um processo único e complexo de formação biológico-social. Com base no método descritivo e clínico, essa constatação é básica e fundamental, desde que sejam neutralizados os pressupostos do atomismo e do empirismo. Mas, ao reintroduzir a análise após o reconhecimento da personalidade integral, o método instrumental e genético é capaz de demonstrar que esse sistema de comportamento é formado por diversas "camadas genéticas" (Vygotski, 1931/1995, p. 68). Estas, por sua vez, são constituídas por um complexo processo de reorganizações no qual a unidade psicobiológica passa por estratificações e diferenciações estruturais e funcionais e, complementarmente, também, por fusões de suas estruturas e funções em unidades sempre novas. Nesse processo, o desenvolvimento natural, de maturação e de crescimento dos sistemas orgânicos (Vygotski, 2016), está imbricado no processo de desenvolvimento cultural, promovido pela educação e por ele reestruturado (Vygotski, 1931/1995, p. 36).

Em um primeiro nível, a estrutura primitiva corresponde a um sistema de comportamento único e sincrético, onde as funções psíquicas ainda estão indiferenciadas. Essa é a estrutura própria das primeiras etapas do desenvolvimento humano que, como tal, é uma etapa genética e funcional prévia à formação das funções complexas (Vygotski, 1931/1995, p. 88). Nessa primeira etapa, a atividade do organismo é guiada pela própria situação da qual faz parte e por um forte matiz afetivo (Vygotski, 1931/1995, p. 37). Nisso consiste a reação simples e direta e o regimento do pensamento pela lei de associação. Em tal caso, o organismo se caracteriza por um "sistema de atividades" (Vygotski, 1931/1995, p. 37), isto é, pela esfera de suas potências biologicamente disponíveis definidas pelo conjunto de seus órgãos e de suas funções. Por exemplo, na criança pequena, no animal e, em determinadas condições, no adulto, "a sensório-motricidade constitui um conjunto psicofisiológico único" (Vigotski, 1930/2004a, p. 107).

Progressivamente, essa estrutura se diferencia e se torna mais complexa, através dos recursos fornecidos pela cultura e possibilitados pela educação. Por exemplo, em determinado momento do desenvolvimento, a percepção da criança adquire certa independência, de modo que, diferentemente da estrutura primitiva, pode distanciar-se da situação imediata, contemplá-la durante certo tempo e não agir de imediato (Vigotski, 1930/2004a, p. 108). Surgem, nesse caso, relações mais complexas e diferenciadas entre a motricidade e os processos sensoriais. As duas funções se tornam relativamente independentes, de modo que a reação da criança deixa de ser estritamente concreta, fundida à configuração situacional. A questão relevante, do ponto de vista da psicologia genética, é, então, por quais meios o comportamento que, anteriormente, era parte de uma estrutura sincrética se torna um comportamento diferenciado e complexo. Não se trata, simplesmente, de reconhecer que a estrutura total é reorganizada, mas de perguntar-se pelas condições de reorganização e pelo processo pelo qual esta reorganização acontece. Dessa forma, torna-se possível formular o problema das relações que são estabelecidas, ao longo do tempo, entre as funções dentro dessa estrutura total - o sistema funcional. Trata-se de determinar segundo quais leis se dão os entrelaçamentos das funções, distinguindo-se nesse entrelaçamento uma organização hierárquica e uma dinâmica de tipo próprio. Assim, chega-se ao reconhecimento de que, no interior do sistema funcional em desenvolvimento, as estruturas e os processos inferiores mais simples continuam a funcionar no interior das camadas superiores mais complexas unindo-se a elas, mas como instâncias subordinadas, dependentes (Vygotski, 1931/1995, p. 145). Nessa perspectiva, compreende-se que as unidades funcionais e estruturais do comportamento são distintamente alteradas e prejudicadas na criança e no adulto em face de lesões neurológicas (Vygotsky, 1934/1965). Não se trata apenas da ausência ou presença do comportamento abstrato em um caso ou em outro, mas da reorganização completa do sistema funcional em cada caso e da hierarquização sobre a qual se funda esse sistema.

A tese da hierarquização das funções psicológicas parece, assim, acrescentar algo aos conceitos de figura e de fundo que atuam no interior do sistema psicológico. E isso permite aprofundar o diagnóstico em neuropsicologia. Assim, pode compreender-se, por exemplo, o fato de que, comparativamente, lesões focais idênticas no estágio precoce do desenvolvimento e na idade adulta podem resultar em transtornos muito diferentes, ao passo que lesões distintas, em transtornos com efeitos comportamentais idênticos. Tome-se um exemplo relatado por Vigotski (Vygotski, 2016). Um adulto que sofreu de encefalite não pode caminhar normalmente sobre uma superfície plana. Caso se coloque uma cadeira a sua frente, no entanto, ele é capaz de saltá-la. A criança que sofre da mesma doença, pelo contrário, é capaz de se movimentar normalmente, e até mesmo em excesso, mas não consegue realizar tarefas complicadas. A explicação desse fato repousa sobre a tese que, em cada momento do desenvolvimento, a lesão é compensada por um centro distinto, a depender das relações já construídas no interior do sistema funcional. No curso do desenvolvimento, as funções ascendem e se diferenciam: as unidades estruturais e funcionais inferiores servem como etapa prévia para o desenvolvimento dos níveis superiores, mais complexos. Os superiores se tornam centros regulatórios independentes dos centros inferiores e estes últimos, por sua vez, meramente centros executivos, sob o mando dos superiores. Na doença, pelo contrário, as funções descendem.

A tese de Vigotski é a de que, na criança, o centro superior ao acometido pela lesão sofre mais, ao passo que a compensação é realizada por um centro imediatamente inferior porque as conexões próprias do centro superior ainda não foram estabelecidas (Vygotsky, 1934/1965). Então, a criança com encefalite tem preservados os movimentos involuntários e menos complexos, ao passo que não desenvolveu os centros superiores, responsáveis por frear a sua ação. No adulto, acontece o contrário: é o centro mais inferior que sofre mais e a compensação é operada pelo centro mais superior, justamente porque, no desenvolvimento, este se tornou independente dos centros inferiores e passou a ser regulado em um nível distinto. Por isso, o paciente com encefalite realiza as tarefas mais complexas, mas não as mais simples.

 

A ordem social e a personalidade

Em uma conferência pronunciada no ano de 1933, Vigotski (Vygotsky, 1933/1987) demarca a diferença entre um conceito biológico de personalidade, aparentemente referindo-se à abordagem de Goldstein, e "um conceito sociopsicológico da personalidade" (Vygotsky, 1933/1987, p. 77), cujos princípios foram formulados por ele e por colegas. Segundo ele, a biologia enfatizou corretamente o papel da personalidade total na esquizofrenia. O autor concorda com a tese de que a personalidade desempenha um papel ativo no processo de desintegração pelo qual passa o esquizofrênico. Apesar da destruição das complexas relações da consciência, a esquizofrenia não consiste apenas no desenlace do processo destrutivo, ou dissociativo, mas na "reação complexa da personalidade" (Vygotsky, 1933/1987, p. 77), na resistência que ela mantém face à doença, na possibilidade da mesma modificar-se ou reorganizar-se. Essa é a tese de Goldstein sobre o processo de doença, como vimos acima. O ponto crítico, para Vigotski, todavia, é que a teoria organísmica erra ao compreender a personalidade como um conceito biológico, em vez de desenvolver "um conceito sociopsicológico da personalidade" (Vygotsky, 1933/1987, p. 77). A interpretação biológica não enfatiza o meio social e a construção social da personalidade, mesmo que tenha o mérito de reconhecer a integralidade e a atividade da pessoa e de reconhecer, também, o papel antropológico fundamental da linguagem.

O princípio da teoria de Vigotski que permite o desenvolvimento desse novo conceito de personalidade é o de que as modificações sistêmicas da estrutura funcional, isto é, da própria personalidade, possuem ligações de dependência com a ordem social e, certamente, também com a linguagem (Vygotski, 1931/1995). Em outros termos, o sistema da personalidade é parte de um sistema ou de um conjunto de sistemas de maior amplitude, de tal forma que a explicação da estrutura e do funcionamento da personalidade requer a consideração dessas ligações de dependência. A tese fundamental, enfim, é a de que a ordem social não é um fim ao qual o organismo tende, mas, antes, um meio que organiza o sistema de atividades de cada indivíduo através das relações entre as pessoas e das relações entre as pessoas e as suas criações objetivas. Aparentemente, isso está ausente da teoria de Goldstein. A partir desse princípio, Vigotski desenvolve um modelo para explicar a organização social do comportamento e, por conseguinte, a origem de suas formas complexas e das hierarquizações que o constituem (Vygotsky, 1930/2004a). Segundo ele, todas as funções psíquicas superiores remontam à divisão entre as funções reais de duas pessoas, o dirigente e o executor. Sobre essa base, o autor formula a lei de que toda função psíquica complexa passa por três etapas. Primeiro, ela acontece na relação objetiva entre duas pessoas, onde uma ordena e a outra executa. Depois, essa relação passa à esfera da conduta do indivíduo, onde ele começa a dizer a si mesmo o que fazer. E, por fim, a relação é totalmente assimilada ao sistema de comportamento e se torna, inclusive, um "ponto intracortical" (Vigotski, 1930/2004a, p. 133). Todo processo psíquico complexo deve ser considerado, portanto, como, inicialmente, uma relação social.

No interior das relações sociais, surgem novos estímulos que se colocam entre a situação concreta e as potências vitais do organismo. Esses novos estímulos são produtos da ação humana sobre o meio e sobre si mesmo ou outrem. Dentre esses estímulos artificiais, encontram-se as ferramentas e o que Vigotski chama, também, de "ferramentas ou instrumentos psicológicos" (Vigotski, 1930/2004b, p. 93) ou de "signos" (Vygotski, 1931/1995, p. 83). De um lado, as ferramentas funcionam como uma extensão dos órgãos naturais e se colocam como meios técnicos de modificação do mundo circundante. De outro lado, os signos colocam-se como meios de influência sobre o próprio comportamento ou sobre o comportamento de outrem. Esse último caso abrange uma série de sistemas auxiliares complexos, como a linguagem, o simbolismo algébrico, as diferentes formas de numeração e de cálculo, a mnemotécnica, as obras de arte, a escrita, etc.

Sobre a base dessas formas artificiais e externas desenvolvidas na vida social, a estrutura do comportamento se reorganiza, suprimindo uma série de funções naturais e dando origem a novas funções, mais complexas. Por exemplo, a memória natural, estabelecida sobre a conexão associativa direta entre eventos, é reorganizada como memória artificial, que por sua vez baseia-se no instrumento psicológico intermediário (linguagem, técnica de memorização etc.). A hierarquia própria ao sistema funcional humano depende, então, da ordem social, que organiza e direciona o seu desenvolvimento. Desse ponto de vista, o sistema de atividades humano não pode designar apenas um condicionamento orgânico. Ele deve ser entendido, pelo contrário, no interior do quadro de uma ontologia prostética e no interior das coordenadas fornecidas pela cultura. De nosso ponto de vista, a ontologia de Vigotski valora o artifício, a prótese cultural, que reorganiza o espaço vital do ser humano pelo fato de ele ser, estruturalmente, um ser social, cultural e histórico. Em outras palavras, o campo de existência da pessoa humana possui uma estrutura extensiva e artificial, muito mais ampla que a estrutura biológica, que se funda sobre o uso de ferramentas e de signos.

No processo de formação social, essas formas artificiais e externas se integram à esfera de existência da pessoa, convertem-se, nas palavras de Vigotski, "em uma parte inseparável da própria personalidade" e criando "um sistema completamente novo" (Vygotski, 1931/1995, p. 133). Mesmo o cérebro não pode ser considerado de maneira independente, porventura como um agente isolado. Pelo contrário, ele só é compreensível como "o cérebro de um ser social" (Vygotski, 1931/1995, p. 84), de tal modo que, conforme o autor, "as leis da atividade nervosa superior do homem se manifestam e atuam na personalidade humana" (Vygotski, 1931/1995, p. 84).

O signo e o seu modo de emprego são, a partir de então, o principal determinante funcional da conduta complexa e da atividade nervosa superior (Vygotski, 1931/1995, p. 122). Em última instância, tais determinantes são circunscritos por fatores mais amplos da organização social, como as classes sociais e a ideologia, que definem o "modo de emprego" (Vigotski, 1930/2004a, p. 117; p. 133) ou regras dos instrumentos psicológicos. Sobretudo, na criança a assimilação dos signos é o principal motivo do desenvolvimento cultural e da diferenciação das funções (Vygotski, 1931/1995). A diferenciação de seu sistema psicológico sofre, ainda, uma profunda mudança qualitativa no período da adolescência. Na adolescência, em particular, esses processos se tornam "internos" (Vigotski, 1930/2004a, p. 117), unem-se ao seu sistema de comportamento. Nesse período, desenvolve-se a autoconsciência e, com isso, as relações entre as funções se estabelecem e formam a "personalidade" em sentido estrito (Vigotski, 1930/2004a, p. 123). Fundamental para essa ocorrência são as novas relações mediadas pela linguagem e, em especial, pelo processo de formação de conceitos. Com isso, fica evidente que, do ponto de vista histórico-cultural, o interesse recai sobre as condições sociais que possibilitam o desenvolvimento de um modo de existência especificamente humano e as regras sociais e culturais que circunscrevem a sua conduta.

 

Considerações Finais

Nossa abordagem nos levou a considerar, a partir do conceito de personalidade, as semelhanças e as diferenças entre a teoria organísmica e a teoria social e histórica da personalidade. Com isso, pudemos entrever que essas diferenças repousam, sobretudo no método (clínico-descritivo e genético-causal) e na ontologia (ou antropologia) subjacente a cada teoria. De um lado, as possibilidades do organismo repousam em sua estrutura somatopsíquica, que inclui não apenas a sua capacidade de reorganização, mas, também, de autorrealização, de outro lado, nos intercâmbios da pessoa com os instrumentos e signos disponibilizados pela cultura e na organização social e histórica de seu campo de possibilidades. Apesar da visível contradição, as leis de funcionamento psicobiológico, tão rigorosamente descritas por Goldstein, parecem ser complementadas pelas leis de funcionamento psicossocial abordadas por Vigotski e não por elas negadas. O princípio aqui em jogo é, justamente, o da suspensão (Aufhebung) hegeliana, e não da negação. Uma tese é superada, mas conservada na nova tese.

Nessa direção, é possível identificar uma concordância essencial entre os postulados teóricos em questão. Ela se refere ao tratamento geral dos problemas implícitos na relação entre a psicologia e a fisiologia: a tradição associacionista e reflexológica não pôde dar uma resposta satisfatória a eles por conta de seu quadro teórico geral, eminentemente mecanicista e atomista. Já Vigotski e Goldstein se apoiam no holismo e no funcionalismo para a compreensão dos fenômenos psicofisiológicos. Assim, encontramos duas abordagens ao problema da totalidade. Apesar de seguirem direções distintas, elas repousam sobre o mesmo motivo-condutor: o desejo de compreender a complexidade do ser vivo e, em especial, da pessoa humana. Esse motivo condutor epistemológico é o seu principal ponto de convergência e torna possível uma eventual aproximação entre elas. Uma via promissora para investigar tal concordância encontra-se na abordagem que os dois autores fornecem a respeito da readaptação do doente (Goldstein, 1934/1995; Vygotski, 1997), da linguagem (Goldstein, 1950, 1933/1969; Vygotski, 1934/2001) ou mesmo do fenômeno da esquizofrenia (Bolles & Goldstein, 1938; Vygotsky, 1933/1987, 1931/1994). Certamente, as pesquisas de aproximação devem ter em conta que as mesmas exigem, também, os distanciamentos e que as teses científicas são construídas, precisamente, no intercâmbio e na luta dos contrários.

 

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Endereços para correspondência:
Hernani Pereira dos Santos
hernanips@msn.com

Joao Batista Martins
jbmartin@sercomtel.com.br

Submetido em: 26/01/2016.
Revisto em: 03/07/2016.
Aceito em: 21/07/2016
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1 A grafia do nome do autor russo possui variações em decorrência do ato de transliteração da palavra russa - em cirílico, - para a língua à qual se pretende transcrevê-la. Assim, o sistema de escrita russo passa por um processo de adequação ao sistema de escrita final, como o inglês, o francês, o espanhol e o português, motivo pelo qual há variações entre as transcrições. Em português, prefere-se a transcrição "Vigotski", ao passo que, em inglês, é preferível "Vygotsky" e, em francês e espanhol, "Vygotski". Ao longo de nosso trabalho, adotamos a grafia "Vigotski" sempre que nos referirmos ao autor em obras traduzidas para o português e sempre que citarmos o seu nome fora de parênteses. Para todos os casos em que seu nome é citado entre parênteses, adotamos a grafia correspondente ao trabalho citado.




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